(O texto abaixo foi retirado do Jornal Folha de São Paulo)*
Método criado por ex-hippie vira mania entre "workaholics" estressados e desorganizados em geral
Projeto "mente tranqüila"
SHIN OLIVA SUZUKI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
É fácil fazer uma lista de projetos pessoais que ficaram pelo meio do
caminho. Mais fácil ainda é pensar nos pequenos projetos ou tarefas do
dia-a-dia que ficam pendentes, com a "luz piscando", até que é decidido
qual o primeiro item a ser resolvido.
Essa inquietação comum levou um ex-hippie e estudante da filosofia zen-budista convertido
em consultor a inventar um método sobre como tentar aliviar a mente e excluir os itens da lista de afazeres. Ou vice-versa.
Discretamente, o livro "Getting Things Done" (algo como "resolvendo as
coisas"), lançado pelo norte-americano David Allen em 2001, foi ficando
conhecido até se tornar um sucesso de vendas.
De um ano para cá, disparou o número de
adeptos do método nos Estados Unidos, muito em razão do boca-a-boca, ou melhor, do
"mouse-a-mouse", da internet.
A essência do GTD, como é chamado o método, espanta pela simplicidade: a idéia é tirar
da mente tudo o que ainda está inacabado de
alguma forma e colocar em um sistema confiável, que possa ser usado periodicamente.
Depois, é preciso decidir o passo-a-passo de cada projeto, grande ou
pequeno, para finalmente colocá-lo em prática. Feito isso, organiza-se
um esquema para revisar e monitorar regularmente como anda cada um
desses projetos até a sua conclusão.
A
essência do GTD espanta pela simplicidade: é tirar da mente tudo o que
ainda está inacabado e colocar em um sistema que possa ser usado
periodicamente
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David Allen esmiuçou seus preceitos em um
livro chamado no Brasil de "Produtividade
Pessoal -A Arte de Trabalhar sem Stress" (publicado pela editora Campus em 2001 e hoje
fora de catálogo), e a idéia original, apesar de
abraçada com entusiasmo, foi revirada e
transformada em vários blogs e sites pessoais.
Os seguidores de Allen contam como pensaram sua versão própria do método GTD. Por
exemplo, se o sistema que utilizam para anotar
os projetos e fazer a revisão do que precisa ser
feito a cada dia e das demandas que surgem é
um nada sofisticado bloco de papel, um caro
palmtop ou sua caixa de e-mail. Como Allen
afirmou a respeito da flexibilidade do método,
em entrevista por telefone à Folha, "absolutamente qualquer lugar pode ser usado como
base para a aplicação".
BUSCA INTERIOR
Alguns pontos do "Getting Things Done" não deixam de refletir a própria
carreira inusitada de Allen. Na adolescência, ele se tornou admirador
de poetas do movimento "beat", como Allen Ginsberg, e começou a estudar
a filosofia zen-budista. Freqüentou o curso de história americana na
Universidade de Berkeley (Califórnia) e, em vez de completar a
carreira, preferiu tornar-se faixa preta de caratê e professor da luta.
Além disso, para ganhar a vida, David Allen
gerenciou um restaurante e uma empresa de
paisagismo. No entanto, fez uma espécie de
busca pelo seu "próprio eu", que serviu para
que, ao final, orientasse executivos sobre produtividade pessoal.
"As pessoas tendem a se distrair facilmente
com uma série de coisas que atrapalham sua
concentração, e eu comecei a descobrir quais
eram esses fatores que tiravam o foco na hora
de realizar as tarefas", diz o consultor. Segundo ele, essas pequenas (ou, não raras vezes,
grandes) distrações sob a forma de projetos
ainda pendentes acabam por sugar a energia
das pessoas.
"Muito do que eu aprendi nas artes marciais
tem a ver com o conceito de clarear o que está
na minha mente para estar devidamente concentrado, e isso faz sentido em um mundo como o de hoje, em que a informação entra em
alta velocidade e muda de face igualmente. É
como no caratê: é importante como você lida
com a surpresa e como você direciona sua
energia de forma eficaz."
REVISÃO SEMANAL
Para ilustrar essa sensação de mente mais leve, o consultor lembra o
que geralmente ocorre antes das férias, quando muitos se sentem
animados a deixar tudo organizado, eliminando pendências e as pilhas
que se acumularam nas mesas durante meses seguidos. Allen afirma que,
em vez de fazer isso só uma vez ao ano, é mais proveitoso que seja
criada uma disciplina para revisar semanalmente o que deve ser limpo.
O economista e professor universitário baiano Enoch Filho, 26, diz que
a vantagem é ter "mais qualidade de escolha sobre suas pendências" ao
aplicar o GTD, pois são levados em consideração a quantidade de tempo
disponível, o prazo de entrega, a sua própria disposição para fazer o
trabalho e o seu contexto.
"Por exemplo, se eu decido assistir a um filme, eu sei exatamente o que deixei de fazer por
ter feito essa opção (deixei de terminar um relatório, preparar uma aula etc.) e me sinto à
vontade com a escolha consciente", diz. Ou seja, há menos possibilidade de que a luz da pendência "fique piscando".
"Fico tranqüilo, sei que não vou me esquecer
das outras coisas pois há lembretes sobre elas
em um lugar confiável, no caso, o meu palmtop", afirma Enoch, que também está iniciando um blog sobre o tema .
O consultor carioca Antonio Azevedo diz que, à primeira vista, o GTD
parece "o óbvio ululante, que não tem nada demais", mas observa que há
uma lógica no método: a de propor a organização de seu centro de tomada
de decisões, que ficaria menos sobrecarregado.
"Não importa se é uma decisão que vai mudar sua vida ou uma coisa banal. O que está
solto na sua cabeça está esgotando sua mente e
ocupando seus neurônios. Parece um método
mais burro, mas que traz resultados melhores
a médio prazo", diz Azevedo.
SENSAÇÃO DE BEM-ESTAR
Para o consultor carioca, o êxito do GTD está
nos "resultados emocionais". "Quando você
faz o inventário do que há pendente, você sente a endorfina, a sensação de bem-estar."
Mas
o economista e professor Enoch Filho diz que
o GTD "infelizmente, não é nenhuma fórmula
mágica. Exige esforço para entrar e se manter
nos eixos. Pessoas muito metódicas também
podem acabar gastando mais tempo se organizando do que fazendo as coisas acontecerem, o que seria improdutivo".
O próprio David Allen admite o caráter "ovo
de Colombo" de seu método ao afirmar que
sua essência é o que ele denomina de "trabalho de conhecimento".
"Saber o significado de cada coisa é a base do
que eu descobri como metodologia, de como
você pode executar suas tarefas de um modo
mais consciente. A maioria das pessoas toma
decisões no calor da situação e isso as prejudica. Não é algo novo sobre o comportamento
das pessoas, mas é preciso oferecer um caminho adequado para se dar conta disso."
O GTD na internet
Em português:
http://enoches.blogspot.com
Em inglês, o número de blogs sobre GTD é enorme. Esses são alguns dos mais famosos:
http://www.3thingstoday.com
http://gtdwannabe.blogspot.com
http://www.43folders.com
* Fonte: Jornal Folha de São Paulo. Caderno Folha Equilíbrio. Seção "Comportamento". Quinta-feira, 29 de Setembro de 2005